Conteúdos deste artigo
ToggleDuas casas com a mesma área, os mesmos materiais e o mesmo empreiteiro podem custar valores bem diferentes. A diferença não está no estaleiro, está no desenho.
Custa a aceitar, porque a conversa sobre poupar numa obra começa quase sempre no sítio errado. Geralmente começa no preço do cimento, na marca da chapa, no desconto do fornecedor. Quando a obra arranca, porém, a maior parte do custo já está decidida porque ficou fechada no projecto, meses antes.
Este artigo é sobre essa fase. São sete ideias de projecto que fazem casas de baixo custo sem baixar a qualidade de nada, e todas se tomam em cima da mesa de desenho, enquanto ainda custam apenas um traço e uma borracha.
Se o que procura é o valor em si, quanto custa construir uma casa em Moçambique responde a isso. Aqui falamos de como desenhar para esse número sair mais baixo.
Porque é Que o Desenho Decide o Custo da Casa
Para projectar com orçamento curto é preciso saber onde o custo se concentra e orientar as decisões a partir disso.
Num relatório sobre habitação de baixo custo preparado para o International Growth Centre e para a Resilient Cities Housing Initiative do MIT, os autores notam que, nos programas de lotes com infra-estrutura, a cobertura é o componente mais caro da casa e o que mais exige mão de obra qualificada. Há projectos que por isso entregam apenas a estrutura da cobertura assente em pilares e deixam as paredes para o morador levantar (Wainer, Ndengeyingoma e Murray, IGC e MIT, 2016).
O mesmo relatório trava as expectativas noutro ponto. Produzir em massa dificilmente reduz o custo de uma casa em mais de 15%. Não há escala que resolva isto sozinha.
Para quem desenha, a conclusão é directa. Não existe um corte grande à espera de ser descoberto, mas sim sete decisões de projecto que, somadas, mudam a conta.
7 Ideias de Projecto Para Casas de Baixo Custo
- Decidir o que não entra na planta
Muitos pensam que a primeira tarefa do projecto é distribuir espaços. Mas não. A primeira tarefa do projecto é discutir o programa com a família e cortar o que não se vai usar. Uma sala de visitas que só será usada duas vezes por ano paga fundação, paga cobertura e paga acabamento, todos os meses do ano.
Os corredores são o outro sugador de custos silencioso. Metro quadrado de corredor custa o mesmo que metro quadrado de quarto, mas ninguém dorme lá. Uma planta bem resolvida liga os espaços sem precisar de tanto corredor.
Isto não é desenhar apertado, é desenhar sem gordura. O artigo sobre casas pequenas mostra como fazer render cada área que fica depois deste corte.
- Desenhar a casa completa e construí-la por partes
Esta ideia muda a vida de quem não tem o dinheiro todo agora, e tem o caso de estudo mais conhecido das casas de baixo custo.
Em Iquique, no Chile, o atelier ELEMENTAL recebeu em 2001 o encargo de realojar 93 famílias com um subsídio de 7.500 dólares cada. Dava para 36 m², metade do que seria uma habitação de classe média. Em vez de projectarem uma casa pequena e completa, projectaram metade de uma casa boa: a metade difícil, a que uma família não consegue fazer sozinha. O resto ficou desenhado à espera que os moradores tivessem dinheiro suficiente para construir. As casas passaram dos 36 m² iniciais para cerca de 70 m² (Quinta Monroy, Arquitectura Viva).
O princípio serve qualquer escala. No projecto define-se a casa final e marcam-se as fases. Na primeira entra o que é caro, técnico e irreversível: fundações, estrutura, cobertura e o núcleo de abastecimento de água. Fica para depois tudo o que se acrescenta sem demolir, sem demolir o que já foi construído.
A condição desenha-se logo no início e não se negoceia: fundações, estrutura e instalações dimensionadas para a casa final. Fundações pensadas para um piso, e a decisão de subir ao segundo dois anos depois, são a forma mais cara de poupar que existe. Este artigo sobre as etapas da construção ajudam a decidir onde cortar as fases.
- Juntar as zonas húmidas no mesmo ponto da planta
Cada casa de banho e cada cozinha arrasta tubagem de água, tubagem de esgoto, ligações e inclinações.
Se o arquitecto põe a cozinha num extremo e as casas de banho no outro, essa distância paga-se em tubo, em escavação e em horas de canalizador. Se as desenha a partilhar parede, ou alinhadas na mesma prumada quando há dois pisos, a tubulação das instalações encolhe sem que a família perca nada em conforto.
O relatório do IGC recomenda precisamente isto: núcleos húmidos costas com costas para reduzir o custo de canalização.
O número de zonas húmidas é também um dos factores que mais faz variar o custo por metro quadrado de uma casa. Duas plantas com a mesma área podem ter preços bem diferentes só por causa de onde estão as casas de banho.
- Dimensionar a partir do módulo do material
Um bloco tem uma medida. Uma chapa tem um comprimento. Uma placa tem uma largura.
Quando a planta dá uma parede de 3,17 m, corta-se bloco em todas as fiadas. Quando as medidas do projecto têm em conta o módulo do bloco, a parede encaixa inteira. Vale o mesmo para a cobertura: uma água cujo comprimento obriga a cortar todas as chapas deixa pontas que vão para o lixo.
Isto decide-se com uma régua e uma tabela de medidas comerciais, na fase em que se fecham as dimensões. Cada corte evitado é material pago que chega à parede em vez de chegar ao entulho.
- Desenhar a cobertura mais simples que o clima permitir
Lembra-se de que dissemos no início que a cobertura é o componente mais caro? Então é aí que a simplificação dela mais rende.
Uma cobertura de duas águas é barata de executar e difícil de estragar. Cada água acrescentada no desenho traz um rincão, e cada rincão traz rufos, remates, mais carpintaria e mais um sítio por onde a água pode entrar durante o período de uso da casa.
A simplificação paga duas vezes: baixa o custo da obra agora e o custo de manutenção depois. Em zonas expostas há ainda o vento, assunto que foi tratado no artigo sobre construção resistente a ciclones.
Repare nisto da próxima vez que passar por um bairro. As casas com mais infiltrações são quase sempre as de cobertura com mais do que duas águas.
- Alinhar a estrutura no desenho
Pilares desalinhados obrigam a vigas de transição. Vãos grandes obrigam a vigas altas e a mais aço. Nada disto se vê na casa acabada e tudo isto se paga.
Uma planta em que os pilares de cima assentam nos de baixo, com vãos moderados e repetidos, gasta menos betão, menos aço e menos cofragem.
A forma geral da planta entra na mesma conta, e está explicada no artigo do custo por metro quadrado: uma planta compacta tem menos parede exterior por metro quadrado de casa do que uma planta em L ou em U.
- Decidir, no projecto, onde o dinheiro entra
Esta é a ideia que separa projectar barato de projectar mal.
Há coisas que se mudam depois sem drama: a tinta, o pavimento, os armários, as luminárias. E há coisas que só se mudam demolindo: fundações, estrutura, impermeabilização, instalações embutidas, cobertura.
Num orçamento curto, o projecto manda o custo todo para a segunda lista e especifica a primeira no nível mais simples que der. Entra-se na casa com paredes brancas e chão simples, e isso melhora quando houver dinheiro. O que não melhora depois é uma laje mal dimensionada.
É também por isto que a escolha de materiais que duram pesa mais na estrutura do que no acabamento. Poupar num interruptor é recuperável. Poupar no recobrimento da armadura não é.
O Que Pedir ao Arquitecto
Se já tem projecto em curso, estas perguntas fazem o trabalho de metade do artigo:
- Quantos metros quadrados tem a planta em circulação, e dá para reduzir?
- As casas de banho e a cozinha estão a partilhar parede ou prumada?
- A cobertura pode ter menos águas sem prejudicar a casa?
- Os pilares de cima caem nos de baixo?
Se eu quiser construir por fases, o que fica dimensionado desde já para a casa final?
Perguntas Frequentes
Casas de baixo custo são casas de má qualidade? Não, se a poupança vier do desenho. São de má qualidade quando a poupança vem do material estrutural e da mão de obra.
Vale a pena ter projecto para uma casa pequena e simples? É nos orçamentos curtos que o projecto mais rende, porque há menos margem para erro. Quase todas as ideias deste artigo se aplicam no papel e não custam nada.
Posso começar a construir e ir decidindo pelo caminho? É o caminho mais caro de todos. Decidir em obra significa demolir o que já está feito, e está entre os erros mais comuns de quem constrói.
Baixo Custo Não é Baixa Qualidade
As sete ideias têm uma coisa em comum: nenhuma pede material pior. Todas pedem mais tempo em projecto antes de a obra começar.
Projectar casas de baixo custo é um exercício de disciplina. Saber de que espaços a família precisa, aceitar um design simples, alinhar o que tem de ser alinhado, e mandar o dinheiro para aquilo que nunca mais se consegue mudar.
A casa que sai daí não parece uma casa barata. Parece uma casa bem pensada, que é coisa diferente.
Quer uma Casa Que Caiba no Seu Orçamento?
Na Arquimpact trabalhamos muito com orçamentos apertados, e é neles que o projecto faz mais diferença. Desenhamos casas de baixo custo para a realidade financeira de cada cliente, incluindo soluções por fases para quem quer começar agora e terminar depois.
Fale connosco pelo WhatsApp e diga-nos quanto tem disponível e para quantas pessoas é a casa.
Se ainda tem dúvidas sobre o valor de contratar um projecto, veja o que faz um arquitecto e quanto lhe pode poupar.

















